Desde que me
entendo por gente venho tomando ciência de prognósticos sobre o Brasil. Nesse tempo
todo já vi períodos de breve euforia, mas o normal são análises negativas e a
culpa sempre remetida para tudo quanto é lugar, desde a conjuntura
internacional; o crescimento ou não de determinada nação ou região; o baixo
preço das commodities, a alta desse ou daquele produto ou moeda etc.
Num mundo
globalizado tudo tem influência, contudo não enfrentamos o problema de frente: O
Problema do Brasil são os Brasileiros. O fato é que não fazemos parte da solução.
Dito isso de
maneira fria e brusca pode até parecer uma sandice, mas refletindo sobre o assunto com os pés
no chão a coisa fica bem diferente.
Nós
brasileiros, ao contrário do dito popular que nos pinta como sendo um povo diligente e trabalhador, pairam sinceras dúvidas. Sempre queremos ganhar altos salários sem a contrapartida de um
trabalho duro e efetivo. Quando estudantes, queremos aprender sem meter a cara nos
livros e estudar pra valer.
Na realidade
posso relacionar, isto sim, características, tipicamente nossas, nada lisonjeiras:
O
brasileiro é invejoso. Ele sempre quer ter antes de ser. Este, no meu entender,
é o mais podre dos sentimentos. A inveja azeda a alma, mina a iniciativa.
Outro fator
negativo é a vaidade. Nós nos apertamos até não poder mais para mostrar o que não
somos e não podemos. Um carro novo não é satisfação pessoal, é algo para mostrar
ao vizinho, ao colega de trabalho, no clube etc. Esse triste sentimento se faz
presente nas estradas e mesmo nas ruas das nossas cidades. Alguém com um carro novo
de boa marca comete todos os tipos de desrespeito às leis de trânsito pelo
simples fato de se julgar melhor que os demais motoristas. Ultrapassa pela
direita nas rodovias; não respeita absolutamente o limite de velocidade e por
aí vai. Chegamos ao cúmulo de levar para o convívio social títulos e posições próprios
do ambiente de trabalho. Aquele que sobe num tijolinho acha natural pisar naqueles
que julga estar abaixo dele.
Temos comportamentos extremamente negativo resvalam para a desonestidade. Certa vez li que ser ético é fazer a coisa certa sem que ninguém esteja
olhando ou vigiando. Bem, aí nós estamos muito mal. Nós somos absolutamente
incapazes de se revelar a um vizinho que, por um descuido, tenha amassado seu
carro dentro da própria garagem comum. Nós fazemos vista grossa se, por acaso,
recebemos um troco a mais e nos indignamos se o troco for a menos. Mesmo podendo pagar, se tivermos oportunidade, fazemos
os mais variados “gatos”, seja na rede elétrica, no sinal de TV a Cabo, na
alimentação de água e esgoto e outros mais. Como consumidor não exigimos o
documento fiscal de nossas compras, qualquer compra. Como empresário nos
furtamos, muitas vezes com as desculpas mais esfarrapadas, a dar a Nota Fiscal ou
Cupom Fiscal e quando alguém pede o documento invariavelmente vem a pergunta: você
quer a notinha? E porque “notinha”? Essa é uma forma de menosprezo pelo documento,
numa tentativa de lhe dizer: não queira essa porcaria, isso não vale nada. No frigir
dos ovos fica a constatação: somos um povo de sonegadores. Quando você compra
um produto ou paga um serviço está embutido o imposto. Se você não exige o
documento fiscal (que é um direito seu) está colaborando com a sonegação. Dar o documento fiscal é
uma obrigação do empresário. Desta forma conivente de agir alimentamos a dicotomia:
“Eu sonego porque temos excesso de
impostos e o governo diz temos muitos impostos porque há muita sonegação”. Como
se vê, não vamos chegar a bom termo.
Agora vem o
pior: não nos adianta querer bons políticos, bons governantes, eles são fruto
da nossa sociedade e carregam dentro de si todos os nossos pecados e defeitos e, como suas
oportunidades de se valer e de produzir mal feitos são maiores, suas
condutas acabam exponencialmente maiores, muitas vezes devastadoras.
Vamos algum
dia chegar a ser um país de Primeiro Mundo? Com a sociedade que temos hoje, nem
pensar.
Que pai ou
mãe leva de volta para o colégio algo que seu filho ou filha levou pra casa de
um coleguinha? O Brasil de hoje é aquele em que todos querem levar vantagem. É a
lei do perde-ganha, onde um perde para outro ganhar, só que no momento seguinte
aquele que ganhou passa a ser o perdedor, logo no final das contas ambos são
perdedores. Numa sociedade realmente igualitária, justa e educada o jogo é do
ganha-ganha, onde todos ganham, não de forma exagerada ou indigna, mas sim de
forma justa. Daí nossa corrupção que se diz endêmica. Somos nobel da corrupção,
capazes de produzir os maiores escândalos, neste particular, já registrados no mundo.
Precisamos com
urgência mudar nosso caráter e isso só é viável através da educação. Não esse
arremedo de educação que hoje existe, mas educação de verdade, aquela que propicia
a formação de uma sociedade proativa, inovadora e efetiva.