sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

EUROPA x BRASIL


 
Viajei à Europa e durante alguns dias passei por 4 países: Espanha, Itália, Suíça, França e de volta a Espanha. Sou viajado de Brasil, por força do trabalho que tinha estive em praticamente todos os Estados brasileiros e mais o Distrito Federal. Conheci por dentro e por fora a desigualdade desse nosso País grande que, se não fosse a atuação quase sempre equivocada de políticos governantes e legisladores, em sua larga maioria, seria também um grande país, até quem sabe, o melhor país do mundo para se viver. É certo que temos coisas boas, mas infelizmente são suplantadas pelas coisas ruins e sempre em benefícios de grupelhos de assaltantes engravatados. Vi a miséria bem como o arremedo de desenvolvimento desorganizado aqui e acolá.

Temos pela leitura e imagens uma noção do que existe no dito 1º Mundo, mas nada substitui a vivência, o estar lá. Pude naqueles dias perceber o enorme abismo cultural, educacional e de civilidade que separam o Brasil dos países europeus que visitei e aqui não vale a desculpa de que somos um país jovem, nada mais que um adolescente se comparado com a Europa, mas o que dizer dos Estados Unidos somente oito anos mais velhos que nós em descobrimento, e o Canadá, e a Austrália, também jovens países.

A Europa vive hoje um dos piores momentos econômicos dos últimos tempos. Crescimento beirando a zero, quando não, negativo. O desemprego é um fantasma que amedronta e tira o sono de famílias aos milhares, mesmo assim o Velho Continente segue a nos dar exemplos de vida, de civilidade. As cidades a custo das mazelas da crise, sofrem. As coisas não estão lá tão bem cuidadas, mas cheias de dignidade. O europeu frente ao drama dos acontecimentos e mais uma avalanche crescente de imigração, quase que totalmente ilegal, segue na busca de soluções para seus problemas.

E nos brasileiros? Filhos desta terra farta, de tantas riquezas naturais, de um clima abençoado, o que fazemos? Produzimos uma quantidade enorme de governantes e legisladores, que após serem eleitos nunca sabemos quem são e muito menos o que fazem ou deixam de fazer. Estamos desperdiçando nosso presente assim como comprometendo o nosso futuro e de nossos descendentes e tudo isso por falta da educação necessária e, por essa via, propiciar vida fácil a um cordel quase infinito de aproveitadores, dos mais abusados aos mais velhacos, dando-lhes oportunidade de se dar bem, de enganar, de roubar descaradamente, de trapacear com o dinheiro público e fazer com que a corrupção desenfreada não tenha fim. Estamos tão acostumados aos maus feitos que achamos graça de nossa própria desgraça. Dinheiro da corrupção em cuecas, meias, malas, uso indevido dos bens públicos em proveito próprio já não mais nos abala. Endeusamos os ladrões, os corruptos, àqueles que aplicam todo tipo de golpe. Aplaudimos essa corja e, se por um acaso são pegos aqui e ali, choram, inventam doenças graves e aí temos pena, perdoamos tudo. Chegamos ao cúmulo de contribuir com dinheiro para custear suas próprias falcatruas. Quanta cara de pau. Mesmo nas novelas erramos. Torcemos pelos personagens mau-caráter, e se durante o enredo viram bonzinhos os largamos de mão, perdem a graça. Especificamente os políticos deste País, nem se fale. Verdadeiros sanguessugas da população que encastelados nos seus redutos de poder, geração após geração, deleitam-se a rir de nós, e é para rir mesmo vez que continuamos a votar neles, em suas mulheres, em seus filhos e filhas, netos etc. Enquanto fazemos piadas de nossa própria sorte, falta-nos o conhecimento para exigir dos governantes e legisladores as três obrigações básicas de qualquer Estado: educação básica gratuita e de qualidade, saúde digna para população e a segurança protetora do cidadão de bem, que lhe garanta o direito de ir e vir.

Na outra ponta vejamos os europeus. A margem de seus infortúnios do momento, eles, pela educação que têm, exigem de seus governantes e legisladores que as obrigações do Estado sejam satisfeitas.

Se quisermos dar esse salto de qualidade é certo que teremos um caminho longo a percorrer e que a batalha nossa de cada dia não vai ser fácil, mas se unirmos forças com determinação vamos mudar esse quadro horroroso. Como nos ensinou Chico Xavier "Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim." Já perdemos muito tempo, cumpre-nos começar agir agora. Cada um de nós fazendo tão somente aquilo que pode fazer e chegaremos lá, mas é preciso começar a fazer. Temos que ser éticos, não transigir neste particular, tolerância zero. Nada de quebrar galho, nada de jeitinho. Fazer as coisas certas, bem como certo as coisas.

Como ilustração, os acontecimentos recentes ocorridos no Estado do Maranhão, um Estado que por incrível que pareça tem "dono", nos dá mostra do tamanho da iniquidade em que estamos mergulhados. Ouvir da própria governadora [filha do "dono" do Estado]: “Um dos problemas que está piorando a segurança é que o Estado está mais rico”, frase candidata a mais bizarra do ano, é um disparate. Justificar dessa forma tamanha barbárie é de fazer chorar. E vale a pergunta: Mais rico de quê? Só se for de mais miseráveis. Enquanto isso, ao lado do noticiário que dá conta do horror existente nas prisões daquele pobre Estado, também se noticia as licitações para aquisição, a peso de ouro, de víveres dignos de um principado abastado, mimos para ela governadora e seus asseclas. Causa espanto constatar que quanto mais miseráveis são as condições de vida de um povo mais ostentação exibem seus governantes, mais corruptos são, mais desatentos e displicentes são para com as necessidades e anseios do povo, bem como para com as obrigações e deveres do Estado.

Tenho absoluta certeza de que nada, mas nada mesmo é do desconhecimento dos políticos deste Brasil. Todos conhecem nossa realidade, bem como a realidade de muitos outros povos e se não fazem nada para mudar essa triste situação é por que está bom do jeito que está, pelo menos para essa classe de privilegiados que juntos consumiram a astronômica quantia de 170 bilhões de Reais [dinheiro público] no ano de 2012. Em 2013 esse número deve ter crescido e muito. Quantos hospitais, escolas e meios de segurança poderiam e deveriam estar à disposição da população somente com parte desse valor? Não sou a favor de que se acabe com governos e casas legislativas, isso seria uma sandice, não sou anarquista, sou sim contra o exagero no qual estamos mergulhados. Hoje um simples vereador de cidade de interior do nada vira milionário. Tem algo muito errado nessa história. Não tem justificativa ter um Congresso com milhares de funcionários e outros tantos contratados e ainda os parlamentares somarem cada um deles 25 assessores ou mais, sendo que essa prática se replica nas assembleias estaduais e câmaras municipais. Nos países que visitei os parlamentares não têm assessores às pencas, os funcionários das respectivas casas legislativas fazem esse papel. Esse exagero de mordomias, nem pensar. Os políticos, assim como a população, têm educação e instrução, isto é, não são analfabetos, longe, bem longe disso e desta forma todos cumprem de forma decente seu papel.

E as cidades no Brasil que são administradas, como é o natural, pelos políticos? Mesmo as cidades grandes tipo São Paulo, Rio, etc são cidades, no seu todo, de 2a classe. As capitais brasileiras, só para exemplificar, não colocam à disposição da população saneamento básico de forma integral. Qual a capital brasileira, a exceção de Brasília, que não tem esgoto a céu aberto? Contudo, caso se bote um pé fora de Brasília, ao seu redor, a miséria impera. Na esteira disso, nossas residências, mesmo as mais caras, são deficientes, construídas com materiais ultrapassados, sejam louças, ferragens, etc. E as ruas e praças de nossas cidades? Nossa !!! comparar é de doer. Lá os monumentos que contam a história do lugar são bem cuidados; o pavimento, as calçadas, as ciclovias não precisam ser refeitas a cada governo, tudo é feito para durar. Vejamos a quantidade de fios aparentes em nossas cidades, são de toda ordem, ou melhor, de toda desordem e chegam às raias da loucura. Caso se retirassem somente os fios sem serventia encheriam vários galpões. Nas cidades civilizadas toda a fiação é subterrânea. E o transporte público? Não tem comparação. E pensar que Curitiba se gaba de suas acanhadas e antigas canaletas. As cidades europeias oferecem toda sorte de transporte com eficiência e presteza. Ônibus biarticulados a diesel, elétricos e a gás natural, que diz a lenda que o modelo biarticulado foi copiado, em meados da década de 90, de Curitiba. Copiar aquilo que é bom é uma virtude e não um defeito. O ruim é copiar aquilo que não presta, o que fazemos de montão. Trens e metrôs modernos e de muita qualidade, estações informatizadas, bondes ultramodernos, bem como aeroportos condizentes com as necessidades da demanda complementam a matriz de transporte. Uma das consequências dessa matriz de transporte é que o europeu, ao contrário do brasileiro, não dá a vida por um automóvel e assim as cidades, mesmo nos horários de picos, tenham um trânsito viável, civilizado, sem congestionamento de tirar qualquer um do sério.

Em síntese qual a grande diferença? Educação, essa palavra mágica. E quando se fala de educação estamos a falar de educação de base. Cá entre nós quando se fala em educação pensa-se logo em faculdades, implantar faculdades a torto e a direita e "formar" milhares de jovens sem o menor preparo de base, muitos deles incapazes de intender o que leem. Isso é coisa de analfabeto recalcado. Educar um povo é dar a esse povo uma escola fundamental de qualidade. Foi dessa forma que os países ditos hoje de ponta deram seus saltos de qualidade e não parindo faculdades de ciências ocultas e letras apagadas. Faculdades de cuspi e giz não vão nos levar a lugar nenhum, muito pelo contrário, só vão fazer crescer o número de frustrados, verdadeiros analfabetos com diploma de curso superior. Nesse particular, está aí para provar as olimpíadas de matemática, ciência etc que o Brasil participa e que sempre fica na rabeira. O que verdadeiramente precisamos é de um ensino fundamental profissionalizante capaz de formar técnicos de qualidade para todas as áreas, que aliás é a grande grita dos empresários. O Ensino Superior fica como uma consequência natural do processo.

Apesar do azedo das palavras sou um otimista. Espero ver esse gigante levantar do seu sono letárgico em berços esplendidos e dar aquele salto de qualidade rumo ao desenvolvimento que tanto almejamos. E isso só depende de nós.