O ano era 1988 e a redemocratização, como propagada,
engatinhava nos seus três aninhos, banhada pelos ventos da Constituição Cidadã que
se avizinhava e nos alcançaria em 05/10 daquele mesmo ano.
O Governo do Paraná, à época, zeloso do patrimônio
público reagiu de maneira forte as vozes de quebra-quebra dos manifestantes
daquele dia 29 de junho de 1988, nem todos eles professores, que rumavam para o
Palácio Iguaçu e Assembleia Legislativa. O choque foi inevitável e as
consequências foram: do lado dos manifestantes algumas escoriações que com
pouco mais de meses estavam completamente curadas, mas do lado do Governo a
história foi outra. Abriu-se uma chaga que, dentre outras, sepultou a carreira executiva
do então Governador Álvaro Dias. O dano foi de tal ordem que o ex-Governador só
voltou à cena política, via o Legislativo, onde até o presente ocupa uma
cadeira no Senado Federal, alias com rara competência. Ainda hoje é quase um
pecado se falar no nome do Senador Álvaro Dias como candidato ao Governo do
Paraná, mesmo que ele tenha sido reconduzido ao Senado Federal com mais de 4,1
milhões de votos paranaenses.
O evento, para os estudiosos, deixou clara a diferença de
conhecimento da nova situação entre aqueles que comandaram aquela greve e suas
passeatas e a administração estadual. Os líderes grevistas se mostraram
escolados, sabedores do rumo que tomariam os acontecimentos e, com isso,
lograram êxito, atingiram a quem pretendiam atingir. Do outro lado, talvez
ainda presos às lições do passado, o Governo não soube ler as intenções, não as
explícitas, mas as camufladas, e reagiu intempestivamente perdendo crédito junto
à população e, seguramente, junto ao eleitor.
Restando um mês para os 27 anos daquele acontecimento,
mesmo com todo o conhecimento gerado nesse tempo todo e, mais ainda, a amostra que
o movimento deu dias antes ao invadir a Assembleia Legislativa num ato no
mínimo reprovável, o Governo do Estado repetiu o erro e, com isso, sacrificou,
na primeira passada, o Comandante-Geral da Polícia Militar, o Secretário de
Educação e o Secretário de Segurança Pública.
Em uma segunda passada que outros acontecimentos virão à
tona? Certamente o Governador atual, Beto Richa, não escapará incólume, algum
dano chegará até ele e se vai ser permanente ou não só o tempo vai dizer.
Ora, as cartas estavam à mesa e os jogadores deveriam
saber como utilizá-las, mas parece que as lições do passado não foram
absorvidas no presente pelos governistas e a história se repetiu. Basta se vê
os noticiários que nos dão conta, tão somente, da truculência da polícia, das
medidas extremas de força utilizadas, do despreparo não só dos soldados, mas também
das autoridades envolvidas que, ao não se entenderem, mutuamente se acusaram
numa tentativa atabalhoada de se livrar da responsabilidade. Nenhuma linha ou
fala toca na invasão à Assembleia Legislativa pelos ditos professores, onde se
viu a baderna que eles aprontaram. Isso passou para o esquecimento como se não
tivesse acontecido.
Os manifestantes tiveram seus ferimentos, tenho certeza
de que todos muitos bem pensados, calculados e esperados, mas o golpe no
Governo foi mais fundo e suas consequências vão reder frutos e mais frutos para
as oposições no futuro.
Não sendo historiador não me atrevo a tecer maiores
comentários sobre os desdobramentos da Greve dos Professores do Paraná de 1988,
a não ser aqueles de domínio público, mas a Greve dos Professores do Paraná de
2015, a Edição 2.0, vai dar, aos membros do atual Governo, panos pra manga como
se diz no popular. Mesmo que os manifestantes não venham obter aquilo que,
teoricamente, estavam reivindicado, já são vencedores.
É impressionante como nós brasileiros não gostamos de
estudar, de fazer o dever de casa, e estamos sempre a repetir os erros do
passado.