quarta-feira, 13 de maio de 2015

A GREVE DOS PROFESSORES DO PARANÁ 2.0


O ano era 1988 e a redemocratização, como propagada, engatinhava nos seus três aninhos, banhada pelos ventos da Constituição Cidadã que se avizinhava e nos alcançaria em 05/10 daquele mesmo ano.

O Governo do Paraná, à época, zeloso do patrimônio público reagiu de maneira forte as vozes de quebra-quebra dos manifestantes daquele dia 29 de junho de 1988, nem todos eles professores, que rumavam para o Palácio Iguaçu e Assembleia Legislativa. O choque foi inevitável e as consequências foram: do lado dos manifestantes algumas escoriações que com pouco mais de meses estavam completamente curadas, mas do lado do Governo a história foi outra. Abriu-se uma chaga que, dentre outras, sepultou a carreira executiva do então Governador Álvaro Dias. O dano foi de tal ordem que o ex-Governador só voltou à cena política, via o Legislativo, onde até o presente ocupa uma cadeira no Senado Federal, alias com rara competência. Ainda hoje é quase um pecado se falar no nome do Senador Álvaro Dias como candidato ao Governo do Paraná, mesmo que ele tenha sido reconduzido ao Senado Federal com mais de 4,1 milhões de votos paranaenses.

O evento, para os estudiosos, deixou clara a diferença de conhecimento da nova situação entre aqueles que comandaram aquela greve e suas passeatas e a administração estadual. Os líderes grevistas se mostraram escolados, sabedores do rumo que tomariam os acontecimentos e, com isso, lograram êxito, atingiram a quem pretendiam atingir. Do outro lado, talvez ainda presos às lições do passado, o Governo não soube ler as intenções, não as explícitas, mas as camufladas, e reagiu intempestivamente perdendo crédito junto à população e, seguramente, junto ao eleitor.

Restando um mês para os 27 anos daquele acontecimento, mesmo com todo o conhecimento gerado nesse tempo todo e, mais ainda, a amostra que o movimento deu dias antes ao invadir a Assembleia Legislativa num ato no mínimo reprovável, o Governo do Estado repetiu o erro e, com isso, sacrificou, na primeira passada, o Comandante-Geral da Polícia Militar, o Secretário de Educação e o Secretário de Segurança Pública.

Em uma segunda passada que outros acontecimentos virão à tona? Certamente o Governador atual, Beto Richa, não escapará incólume, algum dano chegará até ele e se vai ser permanente ou não só o tempo vai dizer.

Ora, as cartas estavam à mesa e os jogadores deveriam saber como utilizá-las, mas parece que as lições do passado não foram absorvidas no presente pelos governistas e a história se repetiu. Basta se vê os noticiários que nos dão conta, tão somente, da truculência da polícia, das medidas extremas de força utilizadas, do despreparo não só dos soldados, mas também das autoridades envolvidas que, ao não se entenderem, mutuamente se acusaram numa tentativa atabalhoada de se livrar da responsabilidade. Nenhuma linha ou fala toca na invasão à Assembleia Legislativa pelos ditos professores, onde se viu a baderna que eles aprontaram. Isso passou para o esquecimento como se não tivesse acontecido.

Os manifestantes tiveram seus ferimentos, tenho certeza de que todos muitos bem pensados, calculados e esperados, mas o golpe no Governo foi mais fundo e suas consequências vão reder frutos e mais frutos para as oposições no futuro.

Não sendo historiador não me atrevo a tecer maiores comentários sobre os desdobramentos da Greve dos Professores do Paraná de 1988, a não ser aqueles de domínio público, mas a Greve dos Professores do Paraná de 2015, a Edição 2.0, vai dar, aos membros do atual Governo, panos pra manga como se diz no popular. Mesmo que os manifestantes não venham obter aquilo que, teoricamente, estavam reivindicado, já são vencedores.

É impressionante como nós brasileiros não gostamos de estudar, de fazer o dever de casa, e estamos sempre a repetir os erros do passado.